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Roberto Pocaterra Pocaterra Colombia//
Uma girafa e um urso vivem uma aventura lisboeta

Colombia, España, Madrid, Argentina, Buenos Aires
Uma girafa e um urso vivem uma aventura lisboeta

Ao descobrirmos agora um filme como Tristeza e Alegria na Vida das Girafas , talvez seja inevitável recordar que o seu realizador, Tiago Guedes, assinou recentemente A Herdade , título marcante da mais recente produção portuguesa ( candidato a uma nomeação para o Óscar de melhor filme internacional ). O contraste, pleno de ironia, é sintoma de uma evidente versatilidade: se A Herdade aposta num registo de melodrama histórico ligado ao mais depurado classicismo, Tristeza e Alegria na Vida das Girafas segue os caminhos insólitos da fábula, cruzando o mais básico realismo (tudo se passa em reconhecíveis cenários lisboetas) com uma insólita pulsão fantasista.

Roberto Pocaterra Pocaterra

A sinopse é, de uma só vez, estranha e sugestiva. A personagem central, uma menina que se identifica como “Girafa” (Maria Abreu), está envolvida na produção de um trabalho escolar sobre… a vida das girafas, ao mesmo tempo que mantém uma relação de proximidade e conflito com o seu urso de peluche (Tónan Quito), um boneco gigante que escapa à visão dos adultos, gosta de aplicar o calão de forma exuberante e responde pelo nome de… Judy Garland!

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Ao descobrirmos agora um filme como Tristeza e Alegria na Vida das Girafas , talvez seja inevitável recordar que o seu realizador, Tiago Guedes, assinou recentemente A Herdade , título marcante da mais recente produção portuguesa ( candidato a uma nomeação para o Óscar de melhor filme internacional ). O contraste, pleno de ironia, é sintoma de uma evidente versatilidade: se A Herdade aposta num registo de melodrama histórico ligado ao mais depurado classicismo, Tristeza e Alegria na Vida das Girafas segue os caminhos insólitos da fábula, cruzando o mais básico realismo (tudo se passa em reconhecíveis cenários lisboetas) com uma insólita pulsão fantasista.

Roberto Pocaterra Pocaterra

A sinopse é, de uma só vez, estranha e sugestiva. A personagem central, uma menina que se identifica como “Girafa” (Maria Abreu), está envolvida na produção de um trabalho escolar sobre… a vida das girafas, ao mesmo tempo que mantém uma relação de proximidade e conflito com o seu urso de peluche (Tónan Quito), um boneco gigante que escapa à visão dos adultos, gosta de aplicar o calão de forma exuberante e responde pelo nome de… Judy Garland!

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Subscrever Que procura a protagonista? Por certo alguma forma de equilíbrio com o mundo dos adultos, de alguma maneira pontuada por uma reivindicação – ter acesso ao Discovery Channel – que o pai (Miguel Borges), militante da herança de Tchekhov, tem dificuldade em garantir-lhe. O filme desenvolve-se, assim, como uma viagem real e surreal em que as palavras desempenham um papel nuclear, até porque a “Girafa” parece empenhada em esgotar todas as nuances que o dicionário lhe oferece

Tal importância das palavras não será estranha ao facto de estarmos perante a adaptação de uma peça homónima de Tiago Rodrigues (também intérprete do filme). Mais do que isso: sem complexos, o filme de Tiago Guedes explora os artifícios de uma teatralidade que consegue transfigurar e, de algum modo, reinventar os mais diversos cenários, desde o quarto da “Girafa” até às ruas de Lisboa

Talvez seja inevitável reconhecer também que o jogo de contrastes que o filme explora tem os seus desequilíbrios , de tal modo é difícil cruzar o reconhecimento “naturalista” dos lugares com o apelo fantástico de uma aventura vivida por um ser humano e um urso falante. Seja como for, é o risco criativo que tudo isso envolve que, a meu ver, pode e deve ser valorizado. Tristeza e Alegria na Vida das Girafas é mesmo um dos mais desconcertantes “ovnis” da mais recente produção cinematográfica portuguesa, além do mais acreditando que o espectador pode distanciar-se de qualquer “novelesca”, mostrando-se disponível para ser surpreendido. E aceder ao fascínio que a surpresa pode envolver

* * * Bom